Pr. Jailson Santos

Seja Bem-vindo!

#Curta nosso blog

Role a página e encontre artigos, sermões e aulas

#Compartilhe nossas ideias

Use as redes sociais para nos ajudar a divulgar a fé reformada

Volte sempre que precisar

Nossa home fica aberta 24h!

Blog

Avaliação crítica do livro "criados à imagem de Deus” de Anthony Hoekema

A questão, "O que é o homem?" ocupa um lugar central no pensamento filosófico contemporâneo. Esta questão certamente não é nova.  Em um dos seus diálogos Platão apresenta seu mestre, Sócrates, como um homem obcecado com apenas uma meta em sua busca pela sabedoria, conhecer a si mesmo.   Enquanto eu não obtiver sucesso em conhecer a mim mesmo, disse Sócrates, eu não tenho tempo para lidar com outras questões que a mim me parecem insignificantes comparadas com esta. Todavia, segundo Herman Dooyeweerd, para os filósofos e antropologos atuais questão "O que é o homem?" não é apenas teórica, mas já se tornou um assunto crucial para muitos pensadores por causa da inquietação espiritual da sociedade ocidental e a crise fundamental de nossa cultura. O fato é que uma visão correta de quem é o homem é uma necessidade para antropologia atual. 

O livro “criados à imagem de Deus” de Anthony Hoekema é um bom manual para se entender a esta questão (“quem é o homem?”) tão antiga, mas que nos é apresentada atualmente com novas roupagens. Analisando através do principio Criação-Queda-Redenção, Hoekema mostra que o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus. O seu propósito ao escreve a obra, aqui analisada, foi a de apresentar o que a Bíblia ensina a respeito da natureza e destino do ser humano e suas implicações práticas para o bom relacionamento com Deus, com o próximo e com o mundo ao seu redor.

 

Podemos concordar com Hoekema quando diz (Teses 1-3) que o problema do homem tornou-se, portanto, um dos problemas mais cruciais de nossos dias, e que à medida que o conhecimento de Deus se torna mais raso, menor será o entendimento de quem é o homem, pois ele só entendido em sua plenitude quando analisado dentro do seu relacionamento com Deus. De fato é impossível uma antropologia sadia divorciada de Deus, pois, como diz Calvino “O verdadeiro conhecimento de nós mesmos é dependente do verdadeiro conhecimento de Deus”.[1]   

O autor está correto também quando diz (teses 4-5) que o homem foi criado por Deus. As Escrituras tornam muito claro que todas as cousas criadas e todos os seres criados são totalmente dependentes de Deus. Além disso, ele difere das demais criaturas por ser uma pessoa pensar e age racionalmente. Por isso, o autor está correto quando diz (Tese 6) que todas as antropologias seculares falham em não considerar o ser humano como criatura, apresentando em função disso, uma visão distorcida do homem. Como criatura atribuímos credito a Deus pela criação, como pessoa atribuímos ao homem a responsabilidade que lhe é devida. Por isso, essas duas verdades não podem ser divorciadas nem excludentes. O equilíbrio deste antinominismo ajuda-nos a não polarizarmos a antropologia.

Outra questão correta levantada pelo autor é a (tese 7) que Jesus é a expressão exata de Deus Pai, a imagem visível do Deus invisível. O que nos leva a concluir que aquilo que vemos e ouvimos em Jesus Cristo é o que Deus planejou para o homem. Quanto à questão da presença da imagem de Deus após a queda o autor compartilha de uma visão bíblica e reformada. Para ele temos de ver o homem caído como alguém que ainda traz a imagem de Deus (tese 8) Calvino expressa essa verdade quando diz:

“... embora concordemos que a imagem de Deus não foi nele aniquilada e apagada de todo, todavia foi corrompida a tal ponto que, qualquer coisa que lhe reste, não passa de horrenda deformidade. E por isso o começo da recuperação da salvação o temos nesta restauração que conseguimos através de Cristo, o qual, por esta causa, é também chamado segundo Adão, visto que nos restitui a verdadeira e completa integridade”.[2]

 

Por ser a imagem de Deus o homem não pode em seu aspecto material considerada como uma “natureza inferior” que precisa ser suprimida (tese 9). Sua idéia é correta, pois a antropologia cristã não pode basear-se em um conceito dualista, filosófico e platônico que coloque em hierarquia espírito e matéria, seu o primeiro conceito superior ao segundo. 

Além disso, Hoekema trata do propósito divino ao criar o homem a sua imagem, que segundo ele, está ligado aos atos de espelhar e representar a Deus (tese 10). Segundo ele ainda, pessoa de Jesus representar o ideal de Deus para a vida do ser humano como imagem dEle (tese 11). Esse ideal por sua vez está ligado a três coisas volta-se para Deus, o volta-se para o próximo e o domínio sobre a natureza. (tese 12). O que é uma visão correta, pois, o propósito de Deus ao criar o homem a sua imagem e semelhança e ao restaurá-lo depois da queda é para que ele cumpra os meus mandatos outrora ortogados, isto é, mandato espiritual (volta-se para Deus) Social (volta-se para o próximo) e cultural (domínio sobre a natureza). Por isso, é correta a analise feita pelo autor que a restauração da imagem de Deus no homem, por meio de Cristo, deve levá-lo ao cumprimento destes mandatos.

Hoekema crer ainda, que a restauração da imagem não diz respeito somente aos aspectos de piedade religiosa no sentido mais estreito. (teses 14, 34). Por isso, o processo de santificação afeta cada aspecto da vida: o relacionamento do homem com Deus, com o seu próximo e com toda a criação (teses 14, 15). O que traz uma implicação prática para a teologia de missões. Pois se o homem deve vê ser restaurado como um todo, logo a missão da igreja é integral e deve alcançar o homem como todo. O Dr. René Padilha [3] teólogo defensor da missão integral da igreja, analisa este principio na ótica missiológica da seguinte maneira:

“Evangelizar é: anunciar as boas novas de Jesus em palavras e ação para aqueles que não o conhecem com a intenção de que pela obra do Espírito Santo se converta a Jesus Cristo e se disponha a segui-lo como discípulo e se unam a uma igreja e colaborem com Deus na realização de seu propósito de restaurar seu relacionamento com Deus, com o próximo, e com toda a criação.” [4] (negrito meu)

Assim a missão da igreja é uma missão integral que alcance o homem como um todo. Nosso entendimento Reformado das Escrituras implica que tudo da vida deve ser trazido em obediência a Cristo. Isto significa que as missões cristãs devem envolver tanto o ministério-de-ação como o ministério-da-palavra. Isso é possível, pois, Deus conduz o coração do homem para que ele seja direcionando cumprir este propósito (tese 16). E ele só encontrará (Hoekema coloca como boa auto-imagem) se estiver de bem com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Por isso, concordo com o autor, tanto no que se refere a sua tese, bem como suas implicações.

Hoekema descarta também a idéia de uma antropologia que descarte a historicidade da queda. Para ele os acontecimentos de Gêneses 1 a 3 são fatos históricos. Essa idéia é bíblica e tem o testemunho de outros teólogos como John Murray que comentando as palavras de Paulo os Corintios (15. 45 – 47) diz:

“O paralelismo e contraste [nestes versos] exigem para Adão, como o primeiro homem, uma identidade histórica comparável ao do próprio Cristo. De outra forma, a base da comparação e contraste é perdida. Adão e Cristo sustêm relações singulares com a raça humana, mas a fim de suster estas relações deve haver para ambos tal caráter histórico que tornarão essas relações possíveis e relevantes”. [5]

Por essa razão concordo com o pensamento do autor, pois, de fato a negação da historicidade de Adão não é somente contrária a Escritura; ela também tem resultados devastadores para a doutrina do homem. Além disso, uma antropologia que descarte a historicidade de Adão, não é apenas liberal, mas antibíblico. O testemunho de Brian Schwertley nos é útil e esclarecedor neste sentido:

“A evidência bíblica da historicidade de Adão é tão clara , abundante e entrelaçada com o ensino de Paulo e de Cristo que é impossível enredar por esse ensino sem também redefinir e rejeitar as doutrinas de Cristo e o Evangelho . O entendimento histórico e literal do relato de Adão e de sua queda é rejeitado hoje não por causa de evidências bíblicas ou até mesmo por evidências científicas verdadeiras, mas porque os homens não querem acreditar no claro ensino das Escrituras”. [6] 

            Uma outra tese importante, que o autor levanta está relacionada com o termo “pacto das obras”. Para ele o termo “Pacto das Obras” não deveria ser usado. Apesar de essa idéia ir de encontro a muitos teólogos reformado de renome, (como Charles Hodge, Robert L. Dabney, William G. T. Shedd, Geerhardus Vos, e Louis Berkhof) creio que há pontos de verdade nessa tese, e particularmente sou um simpatizante dela pelas seguintes razões: Em primeiro lugar O substantivo “tiÞyrIB.” (“berith” pacto) não aparece senão no capítulo 6 de Gênesis[7], estando, portanto, ausente da narrativa da criação e da queda (Gn 1–3); os elementos da graça não são visíveis neste pacto; a palavra pacto na Escritura é sempre usada num contexto de redenção, e antes da queda Adão não tinha esta necessidade. [8] Assim creio que a aliança de Deus é uma única feita no “conselho da paz”, a qual já incluía a “administração adâmica”.

            Hoekema aborda ainda outra questão importante, a origem do pecado (tese 21). Concordo com suas idéia, pois, segue a idéia bíblica que o pecado não se originou no mundo dos seres humanos, mas no mundo dos espíritos. Esses espíritos não foram tentados a pecar por alguma força ou poder fora deles próprios; eles caíram por si mesmos. Sem ter Deus de modo algum envolvimento com o pecado, mesmo soberanamente está cociente dele. Conseqüentemente Adão e Eva foram tentados esses Espíritos, mas com condições de resistir-los permanecerem obedientes a Deus (tese 22). Nas palavras de Agostinho “posse non peccare” (isto é, como um ser que era capaz de não pecar). Além disso, concordo também com a sua sensatez ao dizer que este é um dos maiores enigmas da teologia.

            Concordo também com o fato de que Deus não é o autor do pecado, todavia ele não foi pego de surpresa, ao contrario já fazia parte da vontade de Deus (tese 23). Ou seja, o pecado sempre é contra a vontade de Deus, mas nunca fora ou além da vontade Deus. Mesmo a queda do homem que algo mal e contra a sua vontade, estava dentro de sua vontade permissiva. Que lê foi universal, isto é, se estendeu a todas as gerações futuras. E sendo assim As conseqüências e a imputação da culpa do primeiro pecado se estenderam para todos os seres humanos pós-queda (tese 29). E se dará sempre contra Deus. Ainda todo o pecado, mesmo o pecado contra o nosso semelhante, é em última instância pecado contra Deus (tese 30 - 32).

                                                                                     

Hoekema coloca ainda, que depravação total do homem só é freada, pela graça comum (tese 33). Assim razão pela quais: os homens maus fazem coisas boas; os incrédulos podem ter a luz da verdade brilhando neles; os incrédulos podem estar vestidos com os dons excelentes de Deus; toda verdade vem do Espírito de Deus; e que, portanto, rejeitar ou desprezar a verdade quando ela é proferida pelos incrédulos é insultar o Espírito Santo de Deus. Assim, a graça comum é uma verdade que não pode ser negada e nossa antropologia. O que também concordo.

 

Concordo com a idéia que o homem pós-queda não pode mais escolher o bem e o mal (tese 35). Ou seja, embora não tivessem perdido a sua capacidade de fazer escolhas, eles perderam a sua capacidade de servir a Deus sem o pecado - em outras palavras, a sua verdadeira liberdade. O homem se tornou agora um escravo do pecado; ele agora entrou no estado de “não ser capaz de não pecar” (non posse non peccare)

 

Finalmente, concordo que o homem regenerado não é mais escrava do pecado, assim, pode escolher entre pecar ou não pecar (tese 36). E Que neste processo de santificação ele é ativo e não passivo. Calvino a renovação da imagem de Deus significa ambas as coisas: a obra da graça de Deus e a responsabilidade do homem. O Espírito Santo deve renovar-nos através da Palavra, mas nós, capacitados pelo Espírito, devemos responder à Palavra pela fé.  “A imago Dei” é a ação de Deus sobre o homem no imprimir de sua verdade por sua Palavra, e a ação do homem somente em resposta a esta comunicação desta Palavra.

 

Creio que Hoekema foi infeliz por sua ambigüidade em algumas questões importantes. Também ao fazer uma leitura errada de Calvino quando diz:

 

“Com base na crítica, alguns pontos secundários podem ser mencionados: (1) Calvino é inconsistente quando ele fala a respeito da imagem de Deus no homem caído: algumas vezes, ele diz que a imagem foi destruída, obliterada e apagada pelo pecado, enquanto que em outras vezes, afirma que a imagem não foi totalmente destruída mas que nós devemos ainda ver a imagem de Deus em todas as pessoas, conduzindo-nos em direção a elas, à luz deste entendimento; (2) Calvino sustenta que o domínio do homem sobre a terra não seja parte da imagem de Deus.  Todavia, como já vimos, esse domínio é apresentado como um aspecto da imagem em Gênesis 1.26; (3) Calvino não faz plena justiça à idéia do homem ter sido criado macho e fêmea como um aspecto essencial da imagem de Deus, e para as implicações deste aspecto de nosso entendimento da imagem”. [9] P. 62

 

Calvino deixar sua idéia clara sobre a imagem de Deus quando diz:

 

“... embora concordemos que a imagem de Deus não foi nele aniquilada e apagada de todo, todavia foi corrompida a tal ponto que, qualquer coisa que lhe reste, não passa de horrenda deformidade. E por isso o começo da recuperação da salvação o temos nesta restauração que conseguimos através de Cristo, o qual, por esta causa, é também chamado segundo Adão, visto que nos restitui a verdadeira e completa integridade”.[10]

Ainda:

“A integridade com a qual Adão foi capacitado é expressa por esta palavra [imagem ou semelhança de Deus] quando ele teve plena posse do correto entendimento,  quando teve suas afeições guardadas dentro dos limites da razão, todos seus sentidos temperados na ordem correta, e ele verdadeiramente referiu sua excelência aos dons excepcionais concedidos a ele pelo seu Criador”.[11]

Ou:

“Nós não vamos considerar que os homens merecem por si mesmos mas olhar na imagem de Deus em todos os homens a qual nós devemos toda honra e amor... Portanto, qualquer que seja o homem que você encontre que necessite de sua ajuda, você não tem razão alguma para recusar-se a ajudá-lo...  Diga “ele é insignificante e indigno”; mas o Senhor lhe mostra aquele a quem Ele tem designado dar a beleza da sua imagem.... Diga que ele não merece nem mesmo o seu menor esforço por amor a ele; mas a imagem de Deus, que o recomenda a você, é digna de você dar se si mesmo e todas as suas posses”.[12]

“Portanto, mesmo embora concebamos que a imagem de Deus não tenha sido totalmente aniquilada e destruída nele [homem], todavia ela ficou tão corrompida [pelo pecado] que qualquer coisa que permaneça é uma deformação terrível.” [13] 

 

Assim a posição de Calvino sobre a imagem de Deus é clara e não ambígua.



[1] CALVINO, As Institutas – edição Clássica, Vol I, I § I

 [2] CALVINO, As Institutas – edição Clássica, Vol I 15 § 4.

 [3] O Dr. René Padilla, decano da Fraternidade Teológica Latino Americana esteve no Brasil em 2006, para dar aulas na FTSA, em Londrina, de 16 a 20 de maio, nos cursos de Mestrado e Doutorado. O site da Faculdade Teológica apresentou uma coletânea de citações de suas aulas. Dentre essas a aqui citada.

 [4] PADILHA, RENÉ. Missão integral, igreja e reino de Deus. Artigo disponível em: <http://www.projetotimoteo.org.br/art.asp?id=45> Acessado: 26 de março de 2009.

 [5] MURRAY, John apud HOEKEMA, Anthony A. Criados à Imagem de Deus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999. p. 133

 [6] SCHWERTLEY, Brian. A historicidade de Adão. Artigo disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/criacao/historicidade_adao_schwertley.pdf> Acessado em: 28 de Abril de 2009.

 [7] ROBERTSON ,O. Palmer, O Cristo dos Pactos.Campinas: LPC, 1997

 [8] Ver: van GRONINGEN, Gerard. Criação e Consumação. Volume I. Trad. Denise Meister São Paulo: Cultura Cristã, 2002 (I), 2006 (II), 2008 (III).

 

[9] Essa avaliação foi feita com o professor da matéria Rev. Hermisten Maia.

 

[10] CALVINO, As Institutas – edição Clássica, Vol I 15 § 4.

 

[11]Ibid Vol. I.15 § 3

 

[12] Ibid, Vol. III.7 § 6.

 

[13] Ibid Vol. I.15 § 4.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Jailson Santos

Mestrando em Divindade pelo Centro de pós-graduação Andrew Jumper (Mackenzie - São Paulo)

Bacharel em Teologia pelo Seminário JMC e Universidade Presbiteriana Mackenzie

Pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana Aliança em Limeira - SP

Professor de teologia sistemática no SPFB

Imagens de tema por richcano. Tecnologia do Blogger.