Pr. Jailson Santos

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Resenha crítica e informativa - A Igreja de Edmund Clowney




Resenha
Jailson Jesus dos Santos
CLOWNEY, Edmund. A igreja. Série Teologia Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2005. 317 p.

Em um mudo, no qual, igrejas são abertas a todo tempo, muitos “ministros” se tornam milionários e o sentido da palavra igreja soa como algo enfadonho e irrelevante, uma reflexão Bíblia e teológica sobre a doutrina da igreja é ao mesmo tempo necessária e relevante. Pois, poucas atividades são mais promissoras para a renovação da igreja do que o estudo profundo e prático da teologia. Foi com isso em mente que Clowney escreveu a presente obra. Ela faz parte da “Série Teológica Cristã” que visa oferecer uma apresentação sistemática das principais doutrinas ortodoxas, de forma nova e convincente. Seus autores são de linha reformada e o seu publico alvo é formado por estudantes de teologia em geral, pastores e líderes leigos. Por essa razão, as doutrinas nela abordada não tem caráter exaustivo.[1] O grande propósito da obra é resgatar doutrinas esquecidas e apresentar algumas respostas, aos problemas atuais, que a igreja tem enfrentado no mundo pós-moderno.
O Dr. Edmund P. Clowney, (1917 - 2005) foi pastor da Igreja Presbiteriana Ortodoxa. Nessa denominação serviu várias igrejas no período de 1942-1946. Clowney foi também um grande acadêmico. Formou-se em Artes pela Wheaton College em 1939 e em Teologia pelo Westminster Theological Seminary, em 1942. Depois se tornou Mestre em Teologia pela Yale Divinity School , em 1944, e Doutor em Divindade pelo Wheaton College, em 1966. Clowney foi também um grande educador. Foi professor adjunto de teologia prática e presidente do Westminster Theological Seminary (1966 – 1984). Seus últimos dias foram de serviço em tempo parcial como teólogo residente na Trinity Presbyterian Church.[2]
O primeiro capítulo apresenta a relevância do assunto para o mundo atual. Por isso, seu objeto de estudo, é a visão que o mundo pós-moderno, marcado por um pluralismo efervescente, tem da igreja. Segundo ele, assim como no passado próximo, onde muitos profetas se levantaram para profetizar a morte do cristianismo (tais como Nietzsche, Feuerbach, Marx, Gide e Sartre), no mundo atual, também líderes da mídia, da educação e até mesmo do governo, têm erguido sua voz para apregoar a mesma mensagem: “Deus morreu há muito tempo com a teologia ortodoxa, e a igreja é sua tumba” (p.15). Esta observação de Clowney é pertinente e relevante para a compreensão do cenário que a igreja se encontra hoje. De fato, onde a voz do pós-modernismo tem chegado, ela tem produzido tanto um reavivamento do paganismo, como um intenso desinteresse pelas questões eclesiológicas, e consequentemente tem matado as igrejas. Tudo isso é resultado da decadência espiritual, como ele observa. Entretanto, quanto maior é o declínio, mais necessário se torna a presença da igreja. Sendo assim, Clowney está certo quando afirma que, um profundo estudo da eclesiologia é a grande necessidade da igreja dos nossos dias.
Após falar da relação da igreja com o mundo, ainda no capítulo um, Clowney, passa a falar da relação da igreja com outras igrejas. Ele ressalta que muitos veem as várias denominações como algo saudável. Todavia, o crescimento das seitas tem trazido de volta a necessidade da unidade da igreja. Entretanto, a preocupação ecumênica tomou rumos liberais, e uma das razões foi à eclesiologia adotada pelo WCC (Concílio Mundial de Igrejas) asseverada no seguinte lema: “A teologia divide; e o serviço une”. “O apego e a necessidade da doutrina não deveriam ser desprezados como foram” (p. 18), observa o autor. Mais uma vez a análise de Clowney é acertada e relevante. O desprezo da teologia, em nome de tal ecumenismo, deixou de lado a necessária antítese e escancarou as portas para uma perigosa síntese entre verdades divinas (as Escrituras) e pressupostos humanos (ciências sociais). As consequências desse relacionamento foi o nascimento de novas “teologias” tais como: liberais e da libertação. Sem falar nos grupos paraeclesiásticos, como observou o autor.
No segundo capítulo, o autor fala sobre a igreja como sendo o “Povo de Deus”. Por meio de um relato histórico (começando do Éden até escritos neotestamentários) ele mostra que de acordo com a Bíblia a igreja é o povo de Deus, pois é possessão dele, o seu tesouro. O autor estuda três maneiras que a igreja é apresentada na Bíblia, a saber: assembleia de Deus; a morada de Deus e os escolhidos de Deus. No que refere a primeira, Clowney assevera que o termo assembleia (grego ekklesia; hebraico qahal) aponta para um ajuntamento diferente, pois nesta reunião o Jesus ressuscitado se faz presente por meio de seu Espírito. Ela é também tanto visível como invisível. Deus reuniu seu povo não apenas para ter um lugar para se encontrar com ele, mas para morar com ele. Essa foi à razão que Deus mandou que construísse o tabernáculo e depois o templo. Era essa presença de Deus que distinguia Israel das demais nações. Isso aconteceu não por causa de Israel, mas por que Deus quis que ele fosse o seu “povo escolhido”. A origem dessa escolha foi beneplácito de sua graciosa vontade e não o merecimento de seu povo e o propósito era o serviço que redundasse em glória ao seu nome. Observa-se que a análise do autor apresenta a igreja como sendo acima de tudo uma instituição divina. É Deus quem escolhe e reúne seu povo, e que por sua livre vontade mora em seu meio. Essa verdade precisa ser reavivada em nossas igrejas. A igreja é conduzida por Deus e ela continuará, mesmo em meio aos obstáculos, seu propósito salvífico avançar no futuro exatamente como ocorreu no passado. O fato de ser uma obra divina garantir que nenhuma ação humana prevalecerá contra ela.
A história do povo de Deus, como se pode perceber, conduz a Cristo. Por isso, o objeto de estudo do terceiro capítulo é a igreja como sendo de Cristo. Segundo o autor, a grande mudança entre o Israel do AT para o do NT e a pessoa de Cristo. O que fora prometido ao povo veterotestamentário se cumpriu por meio da vinda do “Senhor e do seu Reino”. Ele se revela a sua assembleia como seu supremo Pastor. Ele veio “como Senhor e como servo para reunir seu rebanho remanescente e fazê-lo herdeiro do reino prometido” (p.39). Essa igreja de Cristo passa a ser a morada de Deus com o seu povo. A implicação do pensamento do autor é que: se no passado Deus “habitava” com seu povo no templo, agora no Senhor encarnado Deus veio morar com o seu povo. O que no templo era representação em Cristo é a realidade. Observe que este verdadeiro templo, que é Jesus, foi “construído” por Deus e não por homens. Finalmente, Clowney, observa que esta igreja é composta por discípulos que foram chamados para estarem como Jesus e depois enviados para fazê-lo conhecido entre as nações. Ao apresentar a igreja como sendo cristocêntrica, o autor resgata uma das doutrinas mais esquecida na igreja moderna. De fato é preciso resgatar a centralidade de Cristo no Evangelho da salvação. Além disso, precisamos mostrar a suficiência de Cristo para a salvação e plenitude da vida. Muitas pessoas estão buscando algo que substitua a fé em Cristo por alguma moda que tenha um colorido cristão. Todavia, Cristo é único suficiente para vida cristã.
A glória que está em Cristo vem com o Espírito Santo que foi enviado do trono de Cristo. Com isso em mente, o autor passa a tratar a igreja como “Comunhão do Espírito” (capítulo 4), a qual é dotada de dons espirituais que enriquecem seus membros (capítulo 5). Com o Pentecoste, o povo da aliança tornou-se a comunhão do Espírito enquanto espera a volta do Senhor. Por meio dele, Deus o fez seu e se tornou dele. Clowney observa ainda que, a vinda do Espírito sobre a igreja foi uma vinda trinitária. Com ele toda trindade veio tomar “posse” de seu povo enchendo sua casa espiritual com sua presença. A luz disso, o autor faz duas perguntas retóricas: “A igreja começou no Pentecoste?” E, “o Espírito que mora na igreja também age fora dela?” A resposta a ambas perguntas é negativa. No que se refere à primeira, o autor mostra que o Pentecoste não criou uma nova igreja, ele apenas a renovou. Além disso, ele já atuava, mesmo que de forma mais tácita, no antigo Israel. Em relação à segunda, Clowney assevera que “o Espírito não pode ser colocado dentro de uma caixa pelos constrangimentos das instituições humanas” (p.51). Ele é soberano e não está cofinado na igreja como o único campo de atuação. Finalmente, o autor afirma que dois atributos define o propósito do Espírito na igreja: Ele é Espírito da verdade, a qual, Ele mesmo inspirou e a usa para convencer e santificar seu povo. E ele é o Espírito da vida, isto é, o sopro do Pai que gerou o fôlego da vida na humanidade. Assim, ele não é uma força ou energia, mas sim o doador da vida.
Como supradito, no capítulo 5, Clowney fala do “Dom do Espírito”. Ele inicia asseverando que se deve pensar em Dom antes de falar em dons. Antes de ter os dons, os cristãos têm o dom, isto é, o próprio Espírito. O qual é o “Espírito de adoção”, pois ele nos une a Cristo. Essa união é representada pela ideia de corpo (igreja) e cabeça (Cristo). Além disso, Ele é também, o Espírito de mordomia que capacita a igreja no serviço a Deus (adoração), próximo (nutrição) e ao mundo (missão). Por isso, o grande recurso da igreja são os dons do Espírito. A grande questão a ser respondida é como obter estes dons? A resposta que Clowney é que a igreja obtém por meio da oração, fé, santidade e da vontade revelada de Deus. Finalmente, o autor assevera que o batismo com o Espírito é uma bênção inicial da vida Cristã. E o enchimento um sinônimo do enchimento de Cristo. “Ser cheio do Espírito é ser cheio de Cristo, conhecer o salvador e seu amor” (p. 66), diz Clowney. A ideia do autor é coerente com o pensamento reformado. Veja que para ele o batismo não pode ser repetido nem pode ser perdido, mas o ato de ser enchido pode ser repetido e, no mínimo, precisa ser conservado. Obseve que esta distinção entre “batismo” e “plenitude” não é apenas necessaria, mas vital para se compreender ambos assuntos. A confusão na definição e entendimento destes termos tem levado muitos a uma má compreenção ou uma exoposição não tão clara da doutrina do Espírito santo, um exemplo disso é a exposição deste assunto feita pelo Dr. Martyn Lloyd-Jones.[3]
Após falar da Igreja como sendo uma obra graciosa e salvadora de Deus do Pai, do Filho e do Espírito (capítulos 1-5), Clowney passa a falar dos atributos da igreja como apostólica, única (capítulo 6), santa e universal (capítulos 7). No que se refere ao a qualidade apostólica, Clowney relata que “a igreja é apostólica porque está fundamentada sobre o ensino dos apóstolos, e também por causa de sua missão, atribuída na Grande comissão, de ser portadora do Evangelho” (p. 73). Duas coisas precisam ser observadas nesta tese de Clowney. Em primeiro lugar, o ensino apostólico foi dado pelo próprio Cristo. Nesse sentido a igreja precisa ser edificada sobre este fundamento lançado por ele. Ela nunca deve ficar aquém ou ir além dele, e nem muito mesmo lançar outro fundamento. Em segundo lugar, a igreja não é apenas o lugar onde as verdades dos apóstolos são depositadas. Ela deve ser também o centro de distribuição. Ela herdou não apenas o ensino dos apóstolos, mas também a sua missão de levar o Evangelho por todo mundo. Nesse sentido, o autor está certo ao afirmar que, “embora a reforma tenha compreendido muito bem a teologia de Paulo, alguns reformadores deixaram de lado a sua visão missionária...” (p. 73). Essa crítica de Clowney é sem dúvida muito pertinente para a realidade de muitas igrejas reformadas. É triste ver igrejas que afirmam seguir a doutrina dos apóstolos, mas que já perdeu de vista a missão deles. Tem “amor” pela doutrina, mas nenhuma “paixão” pelas almas perdidas.
O autor afirma neste capítulo ainda que, além de apostólica a igreja é única. Ela deve ser uma em Espírito. Além disso, “o batismo é a marca visível desta união e santa ceia a manifestação desta unidade” (p. 75). Nada deve dividir a igreja. A diversidade de dons visa capacitar todos os membros a viverem como único corpo de Cristo. Entretanto, creio que o autor falhou por não definir com clareza, com que tipo de igreja se deve ter comunhão (já que está falando da igreja no sentido amplo). É verdade que todas as igrejas são imperfeitas, todavia, distinção entre igrejas com mesmo fundamento apostólico, igrejas “menos puras” e igrejas apóstatas, poderiam ser útil aqui. A falta desta distinção pode levar a igreja os mesmos erros do WCC (Concílio Mundial de Igrejas).
No capítulo sete, como supratido, Clowney fala de mais dois atributos da igreja: santidade e catolicidade. Em relação ao primeiro, o autor mostra que a igreja é a reunião de pessoas chamadas para serem santas (1 Co. 1. 20). Elas devem ser santas porque seu Deus é santo. Nesse sentido, a santidade da igreja a marca como pertencente a Deus. O autor assevera ainda que os meios externos de graça são meios de santificação. Assim, o Espírito “usa a Palavra e os sacramentos para nos santificar” (p. 85). A de se concordar com Clowney, de fato que a igreja foi chamada para vivenciar a santidade de Deus na prática e não apenas na teoria. A igreja deve ser santa não apenas como forma ideal, mas real. Deus sempre chamou a igreja à santidade de vida. Essa talvez seja uma das maiores necessidade da igreja dos nossos dias. Pois, muitas vezes tem havido um divorcio entre aquilo que a igreja prega no domingo e aquilo que ela vive de segunda a sexta. Esse atributo da igreja sem sobra de dúvida precisa ser resgatado.
Além de ser santa a igreja é também católica. O autor inicia mostrando que há um debate acadêmico sobre a palavra “católica”, isso porque ela não é usada na Bíblia. Entretanto, os teólogos (pais da igreja, reformadores e credos e confissões) ao longo da história da igreja, usaram este termo para se referir à igreja como sendo muito mais que uma comunidade local ou como não estando mais “confinada a uma nação, como no tempo da Lei” (p. 87). Clowney faz um “link” interessante entre a catolicidade da igreja e o aspecto “cósmico” da obra de Cristo que é apresentado na carta aos Colossenses. Ele conclui que a igreja é católica, pois a obra de Cristo é universal, isto é, abrange todos os povos, línguas e nações.
Após falar dos atributos, Clowney passa a tratar das marcas (cap. 8). De início fala sobre a necessidade das marcas. Ele relata que as marcas foram definidas para identificar a verdadeira igreja de Cristo. Em seguida, ele apresenta as já conhecidas, marcas propostas pelos reformadores: “pregação da Palavra, observação adequada dos sacramentos, e o fiel exercício da disciplina eclesiástica” (p. 97). Ele observa que os primeiros reformados, como por exemplo, Calvino, apresentavam apenas as duas primeiras marcas, sendo que a terceira foi acrescentada pelos posteriores. O ponto fraco deste capítulo até aqui é que ele simplesmente apresenta mais do mesmo. O destaque, talvez, seja a estreita relação, feita por Clowney entre a Palavra e as outras duas marcas. Só é possível ter observação adequada dos sacramentos, e o fiel exercício da disciplina eclesiástica na Palavra e por meio dela.
O capítulo termina com três perspectivas sobre a igreja. A igreja na perspectiva: visível e invisível. Com base na WFW (Confissão Fé Westminster), ele mostra que ela é visível, pois se reúne na terra, mas é invisível já que se reúne em um único corpo. Uma observação interessante feita pelo autor, é a desculpa de negligenciar a vida terrena (enfatizando o aspecto invisível), ou, a desculpa de buscar uma perfeição legalista na terra (enfatizando o aspecto invisível). O autor destaca também que a igreja é local e universal. Nesse sentido, ela deve ser vista tanto no singular como no plural. Singular, pois ela está em uma comunidade determinada e plural quando pensamos no ajuntamento dos santos. O autor encerra o capítulo relatando que muito mais que uma instituição (como acreditam os católicos) a igreja é um corpo vivo. Nesse sentido a igreja esta onde os seus santos estão. Também, não há distinção entre o clero e os leigos. Essa última verdade apresentada por Clowney é sem dúvida a necessidade de muitas igrejas atuais, de modo especial às reformadas. Muitas igrejas, devido ao bom preparo de seus pastores, centralizaram tanto as atividades normais da igreja neles, que estão quase criando novamente uma distinção entre clero e leigos (mesmo que em outros termos). Por isso, essa verdade do sacerdócio real tão defendida pelos reformadores e aqui lembrada pelo autor, precisa ser reavivada em nossas igrejas.
Os três capítulos seguintes (9 a 11) tratam do ministério da igreja. A igreja serve a Deus por meio do culto (adoração), serve ao próximo (nutrição) e serve ao mundo (missão). No que se refere à adoração, Clowney mostra a diferença e a polarização entre a missa latina e o culto contemporâneo. Se lá havia apenas um padrão, hoje há variedades de formas. A pergunta para resolver esta dificuldade é: que culto é agradável a Deus? De início diz que o culto que agrada a Deus é aquele que é para sua glória. É ela que atrai nossa adoração. Além disso, é a vontade de Deus dirigir a adoração. Não há como discordar de Clowney neste aspecto. O alvo do culto é a glória de Deus. Também, sua vontade não nos permite ficar a quem nem ir além.  Deus nos chama para adorá-lo em “seus termos, não nos nossos”. Assim, o que determina tanto conteúdo como a forma da adoração é a vontade revelada de Deus.
Em seguida, Clowney aborda um assunto de certo modo polêmico: a liberdade no culto. Sua tese principal é que o culto não pode ser um ritual, mas não deve por outro lado cair no exagero. Sua realização deve considerar a cultura do povo, mas ao mesmo tempo não pode perder a ordem e decência. Por outro lado, ele afirma que “desde que não quebre a ordem, não deve haver objeções movimentos espontâneos em resposta de dor ou louvor” (p. 121). Mas insiste que circunstâncias dos cultos não deve se tornar em elementos do culto. Duas coisas precisam ser observadas aqui. Primeiro, é pertinente a distinção feita pelo autor entre circunstâncias e elementos. Não são poucos os que querem, erroneamente, transformar circunstâncias (como a dança de Davi 2 Sm. 6) em um elemento do Culto. Ou o contrário, elementos que são transformados em circunstâncias. Também, há de se concordar com a visão equilibrada do autor (ritual x espontaneidade). Sua ideia de “movimentos espontâneos em resposta de dor ou louvor” é interessante, pois evita a ideia de um culto marcado pela rigidez. Entretanto, essa ideia deve ser aplicada com cuidado na igreja brasileira, devido a nossa cultura evangélica marcada por exageros. A dificuldade é que na prática há dificuldade para controlar estes “movimentos espontâneos” sem que eles quebrem a ordem do culto
Ainda no capítulo nove, o autor fala dos elementos do culto. A pregação, que o principal elemento. Esta não é dirigida a Deus, mas o povo. A oração, que sempre foi um elemento importante, a ponto da sinagoga e o templo serem chamados lugares de oração. E por fim a música, a qual segundo o autor não é em si mesma um elemento de culto, mas uma forma de oração, louvor, proclamação e exortação. Essa ideia da música não ser em si mesma um elemento de culto poderia ser desenvolvida mais pelo autor.
No capítulo 10, o autor trata da “nutrição da igreja”. Ele inicia dizendo que esta nutrição é obra da trindade. Deus Pai instrui e treina seus filhos; Cristo ensina seus discípulos, e o Espírito equipa para servir e nutrir o corpo. O autor assevera ainda que, esta nutrição triúna da igreja tem objetivos específicos, os quais são encontrados no próprio Deus, a saber: Conhecer o Senhor de maneira salvadora, fazer a sua vontade de modo obediente e ser como ele, refletindo sua imagem. A nutrição acontece por sua vez, no lar, na igreja e na escola. Ele lembra que na Bíblia a responsabilidade da nutrição é primariamente dos pais. Eles devem ensinar seus filhos na disciplina do Senhor. Este ensino além de ser formal (ensino da Lei) deveria ser informal (vivencia diária da Lei). Além disso, é função da igreja, e principalmente do pastor, ensinar “os cordeirinhos do rebanho”. Foi com este objetivo que a Escola dominical foi criada. Por fim a nutrição deve vir também por meio das escolas. Estas, segundo o autor, só foram necessárias devido à degradação da família. Estas escolas, quer sejam mantidas pela igreja, quer pelos pais, devem refletir a visão bíblica.
Além de chamar a igreja para adorá-lo e alimentá-la, Deus a chama também para enviá-la ao mundo para dar testemunho de si mesmo (cap. 11). A problemática neste capítulo é: “Qual é a missão da igreja?” Clowney mostra que esta pergunta tem sido respondida por meio de várias ênfases. Cita uma das últimas: a teologia da libertação, que acredita que é a principal missão é a “libertação dos oprimidos”. Entretanto, o autor afirma que a resposta a esta pergunta deve começar pela palavra de Deus. Uma teologia de missão centrada em Deus mostrará que precisamos de Deus não para suprir nossas necessidades humanas, mas acima de tudo nossa carência espiritual de salvação. Clowney foi sem dúvida feliz nesta abordagem. No evangelicalismo moderno não são poucas as igreja que estão definindo sua filosofia de ministério e missão tendo como foco as necessidades humanas. Mais que prosperidade para a vida o ser humano precisa de salvação para alma!
O autor mostra também, que na Bíblia, a salvação é a missão de Deus no mundo perdido. Essa é a missio Dei. Para cumprir esta missão, o Pai enviou o Filho, o qual veio reunir e chamar reunidores, isto é, discípulos que se reúne com ele, e buscam em todos os lugares, outros para também se reunirem com eles.  Nesse sentido, a igreja não apenas vai, mas também atrai. A igreja é lugar onde todos os povos (gentios) se reúnem como o novo Israel de Deus. Entretanto, a missão da igreja é também separar. A mensagem da cruz é cheiro de morte para os que se perdem e aroma de vida para os que estão sendo salvo. Ela divide o mundo em dois grupos: perdidos e salvos.
Em seguida, o autor abordou a missão da igreja no mundo em relação à cultura (cap. 12) e em relação ao estado (cap. 13). No que se refere à cultura, ele inicia falando sobre as atitudes cristãs em relação à cultura. Com base no já conhecido pensamento de Richard Niebuhr[4] e de Kraft,[5] o autor apresenta as clássicas atitudes: os que veem a cultura como ameaça lutam contra ela; aqueles que a enxergue com bons olhos, e se une a ela; os que simplesmente a ignoram; os que edificam sobre ela. E finalmente, os que tenta mudá-la, posição defendida por Clowney.
Essa reflexão sobre qual atitude ter diante da cultura é sem dúvida pertinente na realidade brasileira. Muitos vivem numa “esquizofrenia” cultural. Como diz Horton, “por um lado, compartilhamos com os anabatistas um ódio pela alta cultura; contudo, como os demais liberais protestantes, estamos viciados pela cultura popular”.[6] Ou seja, por um lado, abominam a cultura e consideram-na maligna (antítese cultura). Por outro, bebem dela e saciam a sede dos seus ídolos do coração. Os mesmos cristãos que condenam a música secular e a denominam como sendo do “capeta”, bebem das telenovelas que têm como fundo musical, as mesmas músicas seculares (síntese total). Ao mesmo tempo em que conscientemente condenam a cultura, inconscientemente bebem dela. Vivem nos dois mundos, mas sem uma ação crítica em nenhum deles. Outros por se isolarem da cultura, acabam criando uma cultura de segunda classe, e a cima de tudo, deixam de interagir com a cultura a fim de melhorá-la. Clowney está correto. Os cristãos devem ser transformadores da cultura. A igreja pode transformar a cultura no mundo sem se tornar uma com ele. Segundo ele, para isso é necessário entender biblicamente o que é mundo, para assim compreender suas culturas. A visão bíblica de mundo deve considerar criação, queda e redenção. O mundo foi criado por Deus bom e perfeito. A queda o colocou sobre maldição e fez nascer à apostasia da cultura. Jesus veio para trazer redenção e cumpriu o mandato cultural.
O capítulo 13 é dedicado ao entendimento do “Reino, a Igreja e o Estado”. Para o autor, embora Jesus tenha dito que seu Reino não era deste mundo, seus servos lutariam para defendê-lo e instalá-lo (Jo. 18. 36). Desde o princípio muitos discípulos não entenderam que este Reino é de graça e glória. Ele é espiritual e não terreno. Assim, a igreja como a comunidade do reino na terra é apolítica. É triste ver que, como no passado, a igreja ainda tem usado espada para manipular o estado a seu favor, lamenta Clowney.  Em seguida, ele aborda a relação da igreja e o estado. Segundo ele, a igreja não pode ser uma com o estado. Seu papel deve ser de embaixadora do reino de Cristo e representante de sua autoridade, pois o fato dos governantes serem autorizados por Deus não garante que suas ações serão justas. Essa verdade conduz ao tópico seguinte: “a responsabilidade cristã na política”. Nesse sentido, “a igreja tem o papel profético de compreender e expor as questões éticas que subjazem os temas políticos” (p. 180).
Clowney está correto em suas afirmações. Ao mesmo tempo em que a igreja é apolítica, é também uma embaixadora do Reino. Por isso, os cristãos são agentes transformadores da sociedade em que vivem. O Dr. Heber Campos diz que um dos desafios da igreja neste mundo pós-moderno é o de não se tornar um gueto. A Igreja cristã, diz ele “não deve se isolar, embora deva proteger a verdade. Ela deve aceitar o desafio de contrariar o espírito do tempo presente como uma espécie de ‘contracultura’”.[7] Os cristãos foram postos no mundo para ser a consciência da sociedade, e não para se fecharem em si mesmos. “O reino de Cristo é também externo”,[8] dizia Zuínglio, o qual foi ao mesmo tempo pastor e patriota, teólogo e político.
              Além disso, Clowney, citando Stott, diz que a salvação não é sociopolítica, mas a missão da igreja inclui a dimensão política da vida social. Neste ponto, o autor traz um assunto crítico à tona: cooperação com outros cidadãos para fins políticos. Sua tese é que se deve “fazer isso não como cidadãos da Jerusalém celestial, mas como cidadão de uma nação terrena” (p. 184). A pergunta a ser respondida é: Os cristãos podem se unir há não cristãos a fim de fazer protestos políticos? Muitos dirão que não. Particularmente eu concordo com o autor. Não vejo problemas, por exemplo, dessa cooperação na defesa de questões como o homossexualismo, aborto, ecologia dentre outras coisas.
O capítulo 14 tem como objeto de estudo “a estrutura da igreja de Cristo”. Os três meios de ministério, a saber: Palavra, misericórdia e ordem. Estes têm como objetivo servir a Deus, a igreja e ao mundo. O autor é coerente com o pensamento reformado ao dizer que, em todos estes objetivos a Palavra é central. Ele assevera que é ela que nos conduz a adoração, por meio dela obtemos a nutrição e ao anunciá-la cumprimos a missão. Além disso, Clowney aborda as formas de governo. Ele relata que a “autoridade eclesiástica” deve ser fundamentada e limitada pela autoridade do Evangelho.
Em seguida trata “o ofício da igreja”. Ele afirma que todo cristão possui um ofício na igreja. Por meio de diagramas esclarecedores e criativos, Clowney mostra que há três tipos de ofícios. O ofício único pertencente a Cristo como mediador. O de alguns discípulos que são chamados e capacitados para serviços especiais.  E o de todos os santos, ou seja, serviços onde todos os cristãos são chamados a fazer. A despeito da diversidade de dons, todos são chamados para se engajarem no serviço de: adoração a Deus; edificação do corpo e testemunho ao mundo. Esta proposta de estrutura feita pelo autor está de acordo com a doutrina do “sacerdócio real” defendida pelos reformadores. Apesar de ter lugar para a diversidade dos dons e de uma liderança hierárquica não há lugar para uma “eletrização do Clero” e um desprezo dos leigos, como acontecera na eclesiologia da idade média.
No capítulo 15 Clowney trata de um assunto atual e polêmico, a saber: “O ministério feminino na igreja”. Ele mostra de início que Paulo, parece impedir que as mulheres exerçam ofício de governo ou de ensino na igreja (1 Co. 14. 33b – 36; 1 Tm. 2.8 – 3.7). A teologia de Paulo tem como base a primazia do homem sobre a mulher na criação. Nesse sentido a “subordinação do papel da mulher não começa com a queda, nem cessa na nova aliança” (p. 205). Além disso, essa submissão não é cultural como afirmam alguns. O autor apresenta o texto que é central no debate sobre o papel da mulher na igreja: Gálatas 3. 26 – 29. Ele aponta que a luz deste texto, muitos têm defendido a tese que, assim como não há distinção entre grego e judeu, escravo e servo (pois Cristo transcende tal distinção) não deve haver distinção entre homem e mulher. Em outras palavras, se o gentio se tornou como judeu e o escravo pode ser governante na igreja, logo a mulher também. Entretanto, Clowney afirma que há uma distinção entre os dois padrões. O casamento é um padrão divino onde a distinção é estabelecida deste a criação. O outro padrão é mutável e humano. Há de se concordar com o autor neste ponto. Como ele mesmo observa, a escravidão é um relacionamento forçado, que é alterado pelo amor mútuo enquanto o relacionamento no casamento é foi estabelecido por Deus, para o cumprimento de seus propósitos na criação.
Por outro lado, apesar desta defesa da distinção governamental de homens e mulheres, quando tratando das “mulheres no ministério”, Clowney, baseado no texto de Romanos 16. 1 - 2 vê a possibilidade do ofício de diaconisa. Ele citando Cranfield, assegura que há elementos exegéticos que sustenta essa possibilidade. Por exemplo, o uso do termo “diakonos” no sentido oficial; o termo grego “prostatis” que aponta para um posição social e as exigências feitas às mulheres em 1 Tm. 3. 11 são paralelas às feitas aos diáconos em geral. Com isso ele conclui que estes elementos apontam para o fato de que Febe desenvolvia de forma oficial o ministério de diaconato. No capítulo 14, Clowney dá a entender que a gênese do diaconato ocorrera em Atos 6. 1 – 7 (mesmo que sua função é também ser “assistentes dos ministros da Palavra” p. 198). Se considerarmos Atos como início deste ofício fica difícil, pensar em um ofício de diaconisa. Pois, os sete receberam autoridade de governar e ensinar, o que biblicamente parece ser uma função masculina.
Este tem sido sem dúvida um assunto difícil. Não são poucos os autores (inclusive reformados) que tem defendido a mesma tese do autor. Mesmo ainda estando em formação, particularmente tenho dificuldades de aceitar esta tese. De início tenho sido levado a crer que Atos 6 é a gênese do ofício de diaconato. Reconheço que não há dúvida, que um dos propósitos de Lucas é mostrar mais o crescimento da igreja por meio da ação do Espírito, que a sua organização eclesiástica, por meio da ação dos apóstolos. Também que por ser um livro histórico, Atos é mais descritivo que prescritivo. Além disso, Lucas não descreve uma igreja que é modelo em tudo, para todas as épocas. Todavia, há alguns elementos exegéticos fortes que para uma gênese do diaconato. O primeiro se encontra no verso 3, quando os doze dizem que os eleitos seriam encarregados “deste serviço” (ARA). A palavra “serviço” no original é a palavra “χρείας” (“necessidade”). Esta palavra, segundo Vine, se refere “a distribuição de fundos”, e traz a ideia de uma “função” instituída.[9] Assim, parece que no verso 3 os doze propõem instituir os sete para a função de distribuir os fundos arrecadados diariamente. A segunda evidência, que é mais clássica, está no verso 6. Onde lemos que após orarem impuseram sobre os sete as mãos. A imposição de mãos lembra Moisés comissionamento de Josué em Números 27: 18-23, o qual, através deste ato, a autoridade foi conferida Josué (cf. Lv 3:2; 16:21) . Isso é, evidentemente, que a imposição de mãos foi feita para simbolizar aqui, a transmissão de autoridade para os sete, selecionados pela Igreja (cf. 8:17; 9:17, 13: 3, 19:6).[10] Finalmente, o cargo de diácono é assumida na carta aos Filipenses de modo natural e em distinção dos bispos (cf. Fp. 1:1). Assim, se Atos 6:1-6 não é uma história de iniciação, surge uma pergunta: quando e onde se originou o diaconato?  Como fora dito, ao que parece, os sete diáconos receberam autoridade de governar e ensinar, o que biblicamente parece ser uma função exclusivamente masculina. Entretanto, esta é ainda, uma questão aberta.
Outros dois assuntos polêmicos são tratados nos capítulo seguintes. “Os dons do Espírito na igreja” (cap. 16) e o “dom de profecia na igreja” (cap. 17). Em relação aos dons, Clowney destaca, por meio de estatísticas, o espantoso crescimento dos movimentos pentecostais. Na descrição destes grupos o autor fala dos já tradicionais movimentos (o pentecostal e o carismático), e o movimento recente que ele chama de “a terceira onda”. Este é “equilibrado” possui até pontos em comuns com a teologia reformada, como, por exemplo, não considerar o batismo como “segunda bênção”. Entretanto, este último movimento persiste a acreditar que os “sinais apostólicos” continuam depois da era apostólica. Clowney, que assim como alguns reformados é cessacionalista, refuta este pensamento dizendo que os sinais dos apóstolos marcaram “a era fundacional da Igreja de Cristo” (p. 225). Eles aconteceram a fim de validar o chamado dos apóstolos e ratificar a mensagem. Logo, eles não acontecem mais hoje. Particularmente, reconheço que muitos dos sinais foram dados em um tempo específico a fim de desenvolver funções específicas, e que Deus não é obrigado a agir da mesma maneira como fizera outrora. Também que alguns dons (que produziam grandes sinais) de fato cessaram, mas não temos como dizer com certeza quais são eles. Creio que dizer que não mais podemos ter tais sinais é ir longe demais. Deus é soberano e pode fazer o que quiser e quando quiser. Talvez a maneira mais equilibrada deva ser: “Deus ordinariamente não tem feito tais sinais”.[11]
Tendo dito isso, o autor aborda um dos principais temas da teologia pentecostal, o dom de línguas. Nesta teologia ele é a evidência necessária do batismo do Espírito Santo e uma experiência pós-salvação normativa e disponível a todos. A tese defendida por Clowney sobre este assunto é semelhante a da maioria dos reformados, que entende que batismo com o Espírito Santo, se cumpri na vida de todos os cristãos, quando os mesmos creem em Jesus Cristo e não quando o buscam, como uma “segunda benção” como faz o “movimento carismático”. Clowney trata ainda, sobre o que seriam estas “línguas”. Sua resposta é satisfatória e a meu ver correta. Ele diz que apesar de muitos acharem que esta é dos anjos, é provável que elas sejam “línguas das nações”. Finalmente, o autor fala dos “fenômenos físicos” do pentecostalismo. Sustentado em bases Bíblicas, ele afirma que muitas delas não procedem de Deus, pois “o ardor do Espírito nunca nega a ordem do Espírito” (p. 236).
Como já fora dito, o capítulo 17 é dedicado ao estudo do “dom de profecia na Igreja”. A problemática levantada pelo autor é se a profecia em seu sentido neotestamentário continua em vigor nos dias atuais (At. 11. 28; 21. 9, 10). Há ainda Ágabos e filhas de Filipe? Ele pergunta retoricamente. Clowney lembra que muitas igrejas atuais, acreditam que têm seus profetas que trazem “a última palavra do Senhor” dirigidas as suas igrejas específicas.
A discussão sobre o assunto continua com um saudável debate feito em autonível com o seu ex- aluno o Dr. Wayne Grudem. O autor mostra que Grudem em seu livro “The gift of prophecy: in the new testament and today” [12] tentou resolver a questão das profecias, de forma que respeitasse a autoridade final e a suficiência das Escrituras, mas que ao mesmo tempo abrisse porta para a continuação do ministério de profetas contemporâneos. Para Grudem, há dois níveis de ministério profético na igreja: o apóstolo profeta inspirado e o profeta congregacional, que não pronuncia palavras que lhe tenha sido dadas por Deus, mas busca expressar um conceito ou impressão que lhe tenha sido dado por revelação, a qual pode ser compreendida adequadamente ou distorcida no falar (p. 241). Assim há profetas inspirados (como no AT) e outros não (como Ágado no livro de Atos).
Após analisar o pensamento de Grudem e refutá-lo, Clowney conclui dizendo que a posição de seu ex-aluno “não faz justiça à completude da revelação dada em Jesus Cristo e à suficiência da Escritura na comunicação das últimas palavras de Deus por meio dos profetas e dos apóstolos de Cristo” (p. 252). Assevera ainda que “não é por meio de novas revelações, mas por meio do dom de sabedoria, que o Espírito conduz a igreja à compreensão da verdade e ao caminho da obediência” (p. 252). Os argumentos de Clowney parecem ser mais bíblicos e de maior acordo com a teologia reformada que os do Dr. Grudem. Creio que os profetas, assim como os apóstolos, fazem parte daquele grupo que foi dado a igreja em um tempo específico (esse é um exemplo de dom que cessou). Além disso, novos “Ágabos” poderiam “por em cheque” a suficiência das Escrituras. Ela é tudo que precisamos e nada mais se acrescentará.
O último capítulo é dedicado aos sacramentos. O autor começa respondendo algumas perguntas retóricas: a criação é um sacramento? Os sacramentos são não-espirituais (sic)? Os sacramentos são mágicos?  A resposta à primeira é que os sacramentos não são somente símbolo da graça (arco-íris, por exemplo), mas um símbolo de participação da graça salvadora. Respondendo a segunda, ele diz que, embora os sacramentos sejam símbolos eles são autenticados com a presença do Senhor. Finalmente os sacramentos são mágicas sagradas, nas quais os próprios elementos contêm bênçãos. Em outras palavras, eles não infundem graça naqueles que recebem como acredita a ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana). Tendo respondido estas perguntas, e combatido a os demais sacramentos apresentados pela ICAR, Clowney discorre sobre os sacramentos protestantes: Batismo e Ceia.
Quanto ao primeiro, ele mostra seus simbolismos: a água que simbolizava limpeza; e a circuncisão que era um ritual de purificação. Em seguida fala do batismo infantil, o qual Clowney defende a luz da antiga aliança (circuncisão) e textos do NT (1 Co. 7. 12 – 14; Cl. 2. 11,12; Mt. 19. 13 - 15). Os argumentos do autor neste ponto são bíblicos, de acordo com os símbolos de fé e acima de tudo convincentes.
No que se refere à Ceia o autor traz a discussão as abordagens clássicas a seu respeito. Seu ponto de referência é o reformador João Calvino. Clowney mostra que o reformador genebrino rejeitou “transubstanciação” (substância do pão e do vinho é miraculosamente transformada em corpo e sangue de Cristo), a “consubstanciação” (o corpo e o sangue de Cristo estão presentes “em, com e sob” o pão e o vinho), e o memorialismo de Zwínglio (Cristo glorificado, não está presente “corporalmente” e “fisicamente”). O autor mostra que diferente destes pensamentos, Calvino entendia que o pão e o vinho permanecem inalteráveis, todavia o crente pela fé desfruta da presença de Cristo de um modo que é glorioso e real, ainda que indescritível. A abordagem feita pelo autor do assunto teve como ponto forte o desenvolvimento histórico do assunto. Ele com consegui mostrar com clareza e simplicidade como o conceito calvinista de Ceia foi desenvolvido e chegou até nós.
De modo geral vemos que Edmund Clowney segue o pensamento da maioria dos reformados sobre os assuntos eclesiologicos aqui tradados. Talvez o ponto mais forte da obra de Clowney seja a maneira didática como ele apresenta seu material. Ele trabalha com perguntas e respostas, o que não apenas facilita a leitura, mas também ajuda na compreenção. Os assuntos são tratados de forma tópica e em breves capítulos, fazendo com que não seja enfadonha. Além disso, a sempre diálogos com outras linhas de pensamentos. É possível ver saudáveis debates com o pensamento católico, com as ideias contemporâneas e com outros teólogos.
Alguns[13] tem criticado a obra por achá-lo de cunho mais pastoral (no sentido de simplicidade) que teológica (uma sistematização acadêmica). Entretanto essa crítica não é válida, pois no prefácio geral da série, o organizador, Dr. Gerald Bray, deixou claro público alvo, o qual é formado por “estudantes de teologia em geral, pastores e líderes leigos” (p. 8). E a metodologia: “as doutrinas nela [na série] abordada não tem caráter exaustivo” (p.7).
Em suma, a leitura da obra foi bem produtiva, pois, de maneira profunda, simples e rápida foi possível conhecer não apenas a doutrina eclesiológica, mas as respostas dadas por ela as preocupações contemporâneas. De modo geral podemos ver que Clowney segue uma linha reformada, calvinista e equilibrada da maioria dos assuntos. Suas teses são bem fundamentadas tanto bíblicamente como teologicamente. A grande contribuição da obra é apresentar algumas respostas, mesmo que nem todas satisfatórias, a problemas atuais como: a visão da igreja em um mundo pós-moderno; Conselho Mundial de Igrejas; dons do Espírito, profecias hoje; ordenação feminina, dentre outros. Tudo isso de maneira clara e concisa, o que a torna a obra uma grande fonte de consulta rápida. É de conhecimento de muitos que nem todas as obras que tratam do assunto são assim. Muitas são exaustivas, porém a que aqui foi resenhada é simples e direta. Na obra fica claro o propósito de trazer de forma sintética os principais aspectos da doutrina da igreja, e ele faz isso com eficiência e clareza. Sendo assim, a obra é indicada para todos aqueles desejam conhecer a doutrina da igreja na visão de alguém dos nossos dias. Por isso, para todos estudiosos e interessados em saber, o que é biblicamente e teologicamente a igreja, este é um livro que não pode faltar na biblioteca.






[1] LOWNEY, Edmund. A igreja. Série Teologia Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2005. p. 7.
[2]  About Dr. Clowney in, disponível em: <http://www.edmundclowney.com> Acessado em 17 de maio de 2011
[3] Veja uma analise que mostra de forma resumida o pensamento do Dr. Martyn Lloyd-Jones em um excelente artigo do Dr. Augustus Nicodemus em: Lopes, Augustus Nicodemus. Martin Lloyd-Jones, Stott e 1 Co 12:13 - O Debate sobre o Batismo com o Espírito Santo, em Fides Reformata, 1/1 (Julho-Dezembro 1996).

[4] NIEBUHR, H. Richard. Christ and culture. New York: Harper & Torchbooks, 1956. 259 p
[5] KRAFT, Charles H. Christianity in culture: a study in dynamic biblical theologizing in cross-cultural perspective. Maryknoll: Orbis books, 1980.
[6] HORTON, Michael S. O cristão e a cultura. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 206 p
[7] CAMPOS, Heber Carlos de. O pluralismo do pós-modernismo. Fides Reformata. Vol. II, N° 1 (1997).
[8]Apud GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores. Trad. Gérson Dudus, Valéria Fontana. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 112
[9] Cf. VINE, W. E. Vine's expository dictionary of Old & New Testament words. Nashville: T. nelson publishers, 1997. Disponível na Bíblia eletrônica e-sword.
[10] Longenecker, R. N. (1981). The Acts of the Apostles. In F. E. Gaebelein (Ed.), The Expositor's Bible Commentary, Volume 9: John and Acts (F. E. Gaebelein, Ed.) (pg. 326ss). Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House.
[11] Essa tem sido a resposta dada pelo Rev. Leandro Lima professor de teologia sistemática no seminário JMC.
[12] GRUDEM, Wayne A. The gift of prophecy: in the new testament and today. Wheaton: Crossway Books, 1988. 351 p.
[13] Ver opiniões dos leitores em: <http://www.amazon.com/Church-Sacraments-Ministry-Contours-Christian/dp/0830815341> Acessado em 26 de mai. de 2011

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Jailson Santos

Mestrando em Divindade pelo Centro de pós-graduação Andrew Jumper (Mackenzie - São Paulo)

Bacharel em Teologia pelo Seminário JMC e Universidade Presbiteriana Mackenzie

Pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana Aliança em Limeira - SP

Professor de teologia sistemática no SPFB

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