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João Calvino 500 anos: introdução ao seu pensamento e obra.


Compreensão e Avaliação
Por
Jailson Santos

COSTA, Hermisten Maia Pereira da. João Calvino 500 anos: introdução ao seu pensamento e obra. São Paulo: Cultura Cristã, c2009. 399

Durante os últimos séculos, tanto do ponto de vista teológico, como do ponto de vista literário, nenhuma pensamento contribuiu com igual clareza e igual força para o desenvolvimento das sociedades como o pensamento de Calvino, o qual, ao longo da história tem alcançado gerações. Nos últimos anos as “Institutas” (sua principal obra) têm sido o livro texto de muitas instituições religiosas. Varias edições latinas e francesas, e numerosas traduções em línguas estrangeiras foram dadas ao público durante sua vida e continuaram a ser após a sua morte. Nas palavras de Gouvêa, não é exagero afirmar que a historia da teologia pode ser dividida em pré-Calvinista e pós-Calvinista.[1]

Fruto desse desenvolvimento do pensamento calvinista que chega as nossas mãos o livro “João Calvino 500 anos: introdução ao seu pensamento e obra” do Dr. Hermisten Maia. O presente livro é uma obra para acadêmicos e leigos que desejam conhecer a vida e a obra deste grande reformador genebrino de maneira clara, profunda e, como é comum nos demais livros do autor, com uma rica fonte bibliográfica. A proposta principal da obra é destacar alguns temas do pensamento de João Calvino, o qual, segundo o autor, nada mais são que fruto de sua exposição bíblica. Nesse sentido, a presente obra nada mais é se não uma breve e profunda exposição de pontos específicos e autônomos da vida e obra de Calvino coexistida em uma unidade coerente.

O Dr. Hermisten Maia é de formação reformada calvinista. Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2003) e com vasta experiência na área de História, com ênfase em História da Reforma Protestante, este estimado teólogo tem dedicado sua vida ao estudo da vida e obra de João Calvino, Reforma Protestante e Teologia Sistemática. O texto apresentado pelo autor é fruto de anos de pesquisa feita na academia e das inúmeras aulas ministradas sobre o assunto ao longo de sua vida.

A obra é divida em duas partes com um total de dez capítulos, os quais trazem uma análise histórica e teológica vários aspectos da vida e obra do reformador, no seu exercício ministerial na cidade, seu ofício pastoral na igreja e sua vida como teólogo acadêmico. Na primeira parte o autor discorre sobre “a reforma protestante e o surgimento do reformador”. A presente obra é uma síntese sistematizada da vida e obra de João Calvino, talvez o maior expoente da Reforma Protestante e maior nome da teologia reformada.

A fim de contextualizar o reformador Genebrino na história secular e eclesiástica, o autor aborda no primeiro capítulo a reforma protestante. Sobre sua origem, Maia assevera que a reforma foi um período marcado pela pobreza moral e espiritual da igreja, de modo especial no clero. No que se refere à história secular a reforma é marcada pela efervescência do Renascentismo e do Humanismo. O autor aborda ainda a Reforma como movimento religioso e teológico, atmosfera na qual Calvino se destaca como pensador influente.  Destaca que apesar de ter alcance cultural e social a reforma fora um movimento eminentemente religioso e teológico, o qual não visava criar uma nova igreja, mas torna mais bíblica a existente. Sobre o a reforma e humanismo-renascentista o autor lembra o leitor que a iluminismo teve grande influência no pensamento dos reformadores, mas eles não foram sintéticos em termos de valores cristãos e pagãos.  Ele ressalta ainda o papel das Escrituras na reforma. A Reforma fora um retorno as Escrituras, a qual se deu na mesma mão do “livre exame” presente no iluminismo. Neste sentido houve um divorcio com a tradição vista ao longo dos anos.

O capítulo dois relata o surgimento de Calvino como reformador. De início o autor aborda a formação que Calvino recebera ao longo de sua juventude. Destacam-se as universidades pelas quais ele passou e a transição dos estudos da jurisprudência para a teologia. Em seguida o autor aborda a conversão do reformador. Lembra-nos que não nos é possível precisar as circunstâncias e data da “súbita conversão” de Calvino e que devemos estar atentos também para o fato de que a vida de Calvino, mesmo antes da sua conversão, não fora marcada por um comportamento dissoluto e imoral. Dr. Hermisten discorre também sobre a relação entre o humanismo e o Calvino. Além de definir o humanismo e contextualizá-lo historicamente, Maia traz suas principais características: (1) Restauração da Cultura Clássica; (2) Criação do Novo; (3) Síntese do Cristianismo com a Cultura Clássica; (4) Valorização do Homem: “O homem é a medida de todas as coisas, da existência das que existem e da não existência das que não existem”. Finalmente, Costa aborda Calvino: um humanista. Destaca que o reformador genebrino fora um genuíno humanista e que isso é possível ser visto: 1) Seu conhecimento humanista visto na sua analise filológica e literária apresentado em sua primeira obra: “De Clementia”; 2) Sua amizade com pensadores humanistas tais como Guillaume Budé, Corderius, Melchior Wolmar, dentre outros. 3) Em sua objetividade desejada na alise bíblica e teológica bem como nas questões cotidianas.

A segunda parte do livro é dedicada especialmente ao pensamento e vida prática de João Calvino. No capítulo três, um dos mais extensos da obra, o autor aborda o método hermenêutico de Calvino destacando sua crença inegociável na suficiência das Escrituras em sua fé e prática pastoral. Principia falando da origem, autoridade interna e suficiência das Escrituras. Destaca que Calvino considerava as Escrituras como suficiente, que contem a verdadeira filosofia de vida cristã. Mostra que ao longo da história esta suficiência tem sido atacada por grupos, como por exemplo, espiritualistas e místicos.

Aborda ainda o relacionamento entre tradição e Escrituras e assevera que a reforma trouxe um novo “eixo hermenêutico”, o qual deslocou a tradição da igreja para compreensão pessoal o que levou muitos a levantar a bandeira de um dos lemas da Reforma: “Sola Scriptura”. A razão da singularidade das Escrituras, para Calvino, reside no fato dela ter sua origem divina e humana, isto é, ela vem de Deus e foi registrada por meio de homens. Assim, o reformador defendia que a igreja deve está sob a Escritura. Logo, “a pretensão da igreja de subordinar a autoridade da Bíblia ao seu arbitro consiste em uma blasfêmia” (COSTA, 2009, 76). Vida pessoal e coletiva deve ser pela Escritura.

O autor fala ainda de um dos mais conhecidos princípios hermenêuticos de Calvino: acomodação da Palavra. Para Calvino Deus em sua Palavra “se acomodava à nossa capacidade”, balbuciando sua Palavra a nós como as amas fazem com criança. Citando Kuyper o autor lembra que a teologia nunca é “arquetípica”, mas “éctipa”. Outro ponto levantado pelo Dr. Hermisten é que Calvino era um discípulo das Escrituras na escola do Espírito. Seu conhecimento e visão do mundo estavam submissos as Escrituras, pois todo conhecimento das ciências não passa de fumaça separada da ciência celestial.

Costa destaca ainda que a teologia de Calvino é fruto do seu labor exegético e pastoral de comentar em serie as Escrituras, o que fez de sua obra uma “teologia bíblica” escrita por um teólogo sistemático. Calvino, como humanista que era, era breve e claro em seus comentários. “Aprecio a brevidade” diz Calvino (Apud COSTA, 2009, 99). Calvino também se preocupava em alcançar o sentido original do texto e apresentá-lo de maneira simples e clara, o que lhe deu o título de “o exegeta da reforma”.

Além de apresentar Calvino como um grande interprete, o autor o traz como um grande pastor que entendia que o conhecimento era para vida. Por essa razão, as últimas páginas do capítulo são dedicadas a responsabilidades dos pastores. Neste sentido alguns princípios pastorais são destacados: a) Deus vocaciona seus pastores para seu serviço santo; b) Deus usa seus ministros, os quais são escolhidos por graça, a fim de serem fiéis as Escrituras, para com autoridade ensinarem as Escritura para a vida. O autor encerra o capítulo com uma palavra aos ministros e fieis onde são abordados princípios como: a) humildade; b) exame criterioso; c) a manutenção dos ministros.

 O capítulo quatro apresenta a visão de Calvino a respeito da doutrina da eleição. O autor assevera que esta doutrina é amplamente ensinada nas Escrituras, fazendo parte dos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos e que como eles Calvino a ensinou de maneira especulativa, árida e abstrata, mas sobre tudo de maneira existencial. Em seguida o autor apresenta algumas considerações gramaticais da ideia bíblica da eleição tanto no Antigo Testamento como no Novo. Para isso apresenta o sentido geral e teológico dos verbos  “Bãhar” e “Eklégomai” que significam: “escolher”, “eleger” e etc. Em seguida define a doutrina da eleição a Eleição  é o ato eterno de Deus, por meio do  qual, Ele decretou livre, soberana e misericordiosamente salvar em Cristo Jesus um determinado número de  homens da raça humana.

Em seguida apresenta pressupostos da doutrina da eleição: 1) a depravação total do homem: O homem desde à Queda, encontra-se sob o domínio do pecado e, por isso mesmo, é incapaz de responder positivamente ao chamado externo do Evangelho. 2) Liberdade Soberana de Deus: O Poder de Deus é Soberanamente livre; Deus não  tem primariamente compromissos com terceiros; 3) A Existência de um Plano Divino: A escolha, feita na eternidade, denota a existência de um plano, o qual Deus mesmo dirige para a execução da Sua vontade. 4) O autor da eleição: O decreto da eleição é uma obra da Trindade, todavia, a Bíblia atribui mais especificamente ao Pai este ato soberano.

Na sequencia o autor faz algumas considerações bíblico-teológicas sobre a eleição de Deus: 1) É um Ato da Vontade Livre e Soberana de Deus: Deus nos elegeu conforme a Sua sábia, amorosa e eterna vontade. A escolha de Deus não sofre nenhum tipo de constrangimento no seu exercício. 2) É Eterna e Imutável: Os propósitos de Deus são eternos não estão circunscritos ao tempo, à aprendizagem e  à “maturação das ideias”. 3) É em Cristo: Cristo é o representante e o fiador eterno do Seu povo. A eleição não ocorre fora da Pessoa de Cristo. 4)  É Graciosa e Incondicional: A eleição   não   é condicionada ou dependente  de “boas obras”  nossas,  nem de fé ou mesmo, de previsão  de fé, mas sim do beneplácito  de  Deus.  5) É Irresistível: Deus  exerce  a Sua influência sobre o homem eleito, quebrando  a sua indisposição  espiritual. 6) É Pessoal: Deus  escolheu pessoas individualmente. 7) É Perfeitamente Justa: Deus continuaria  sendo  perfeito em Sua justiça  se não salvasse  a ninguém.

Sobre a relação entre eleição e fé o autor afirma que “a eleição divina é-nos totalmente estranha até que nos conscientizemos desta realidade pela fé” (COSTA, 2009, 158). O autor destaca os propósitos da eleição: a) abençoador; b) ético, o qual nos leva a uma vida de santa, irrepreensiva, de obediência e serviço; c) Salvador; d) glorificador. Finalmente, o autor aborda as atitudes que devemos ter diante desta doutrina: a) fé na verdade; b) serviço; c) amor laborioso; d) humildade; e) santificação; f) amor a Deus; g) firme esperança em Cristo; h) Bendizer a Deus com gratidão; i) certeza da vitória; J) proclamação; k) promover a gloria de Deus;

No quinto capítulo o autor se atém a explicar a visão de Calvino sobre o homem como imagem e semelhança de Deus. A pergunta a ser respondida é: Que é o homem? A resposta a esta pergunta tem tido variações ao longo da história. Na idade média a “fé” era a medida de todas as coisas. Na idade moderna o homem passou a ser a medida de todas as coisas. Segundo o autor, dois movimentos contribuíram para isso: a) o humanismo renascentista: "O homem pelo homem para o homem"; foi lema tácito do Humanismo Renascentista. b) O Iluminismo, o qual, em seu otimismo considerou a autonomia humana como o centro de todo o seu pensar e agir. Em seguida o autor apresenta a perspectiva de Calvino sobre o homem. Resalta que Calvino, como humanista que era, compartilha da visão da grandeza do homem; no entanto, o seu ponto de partida é Deus. Em síntese, podemos dizer que “o ‘humanismo’ de Calvino era um ‘humanismo cristocêntrico’, caracterizando-se pela compreensão de que o homem encontra a sua verdadeira essência no conhecimento de Deus” (COSTA, 2009, 203).

Outro ponto destacado pelo autor é o homem, criatura de Deus. Essa tese é defendida por meio dos seguintes tópicos: a) o lugar do homem na criação: O homem é a coroa da criação. Ela foi direcionada para proporcionar ao homem a satisfação de suas necessidades e a sua felicidade. b) o significado das palavras “imagem” e “semelhança”. Antes de dizer o que é o autor apresenta não é: 1) Não tem a ver simplesmente com o Físico; 2) Não consiste somente no domínio sobre o mundo. Tendo dito o que não é Costa passa a afirma o que é “imagem” e “semelhança”: a) Consiste em "Retidão" e "Verdadeira Santidade"; b) Consiste de Imortalidade; c) Consiste de Inteligência, Razão e Afeições. 3) O Fundamento Principal da Imagem está no “Coração” e na “Mente”:  Calvino mostrar onde reside essa “retidão” e “santidade”. Segundo ele, elas residem na mente e no coração, onde “retidão” e “santidade” eram mais eminentes.

Em seguida o autor passa a abordar “imagem de deus após a queda” e mostra que ela se tornou: 1) Imagem Desfigurada: Apesar de o pecado ter sido devastador  para o homem, Deus não apagou a sua “imagem”; 2. Ignorância Espiritual: “após a sua rebelião, ficou privado da verdadeira luz divina”; 3. Universalidade do Pecado: O pecado atingiu a todos os homens. Seguindo, mesmo que de forma tácita, a tríade criação queda e redenção o autor aborda a restauração da imagem e assevera que: a) O Ato de Deus: fruto de sua graça; b) O Processo de Deus em Nós: Se dá por meio de Espírito.

Costa finaliza o capítulo fazendo algumas implicações: 1) O Valor do Homem: O homem deve ser respeitado, amado e ajudado porque é a imagem de Deus; 2) A Imagem de Deus e os Crentes: Nos eleitos, os da “família da fé”, Deus tem renovado e restaurado por meio do Espírito a imagem de Deus; 3) O Amor ao Próximo Como Uma Implicação da Imagem de Deus no Homem: “nosso amor deve ser visivelmente estendido a toda a raça humana” (COSTA, 2009, 217). Logo, essa doutrina deve nos conduzir a piedade.
O capítulo seis trata da espiritualidade de João Calvino analisando suas ideias sobre oração, a qual, é indispensável a teologia. É digna de nota a importância que o reformador genebrino deu a oração. Antes de ser um teólogo Calvino fora um piedoso pastor. Costa lembra que a teologia de Calvino estava relacionada com a vida prática. Para Calvino, “todo o pensar teológico está conectado com a piedade. A teologia envolve toda a nossa mente, coração e vontade” (COSTA, 2009, 226), logo, a doutrina é para ser crida, vivida e ensinada. Destaca, também, a reverência humilde que Calvino tinha diante da glória de Deus e sua consideração para com os salmos bíblicos, os quais ele dizia ser a anatomia da alma. Grifa que a felicidade humana não se encontra no aqui e agora, mas no lá e então. Destaca que a oração é um ato de elevar-se e envolve reverência e se expressa no que pedimos.

Em seguida apresenta a oração como exercício de fé na providencia de Deus. Na oração, revelamos a nossa fé em Deus e em seu providente cuidado. Orar é entregar o futuro a Deus e por isso, é o melhor antídoto contra a ansiedade. Nesse sentido orar é depositar tudo que temos e somos em Deus. Costa aborda em seguida o conteúdo da oração, isto é, as promessas de Deus. Para o autor, as promessas de Deus, conforme registradas na Palavra é o estímulo à prática da oração. Lembra ainda, que a oração do Senhor é um modelo para todos os tempos. Por meio dela aprendemos a suplicar o favor de Deus, buscar nele refúgio e acima de tudo devotar a ele a glória devida.  Finalmente, o autor trata da prática da oração. Ela deve ser sistemática, constante e em todo tempo. Além disso, ela não visa informar a Deus o que precisamos e mudar seus planos, mas transforma nossas vidas e nos conduzir ao sentimento de dependência.

O capítulo sete aborda o culto ao Senhor dentro de uma perspectiva calvinista. O autor abre o capítulo asseverando que fomos eleitos na eternidade para adoramos a Deus e o culto é o momento mais sublime de nossa volta a Deus e maior evidência de nossa saudade dele. Para maior entendimento do assunto o autor traz o significado e o sentido de liturgia no âmbito gramatical, histórico e teológico. Em seguida apresenta a perspectiva teocêntrica da adoração calvinista onde destaca que o culto não visa satisfazer nossos desejos pecaminosos, mas glorificar a Deus. E verdade que a adoração a Deus permite adaptação cultural, todavia essa deverá sempre ser regulada pelos princípios explícitos nas Escrituras, a palavra final do pensar, sentir e fazer. Além disso, o autor apresenta os elementos essenciais do culto segundo Calvino: Palavra; oferta e Santa Ceia. Sendo que todos eles deveriam se ministrados com simplicidade.

Logo em seguida, o autor fala da visão de Calvino sobre a Ceia. Lembra a compreensão de Calvino sobre este assunto é uma síntese do pensamento de Lutero e Zuínglio, isto é, um sinal visível que representa uma realidade espiritual e um meio de graça real. Traz ainda a visão dos calvinistas sobre o assunto exposta nos catecismos de Wstminster e Heidelberg. Os últimos dois assuntos tratados no capítulo são os cânticos e o culto como profissão de fé. Sobre o primeiro, o autor destaca o aspecto didático da música e como ela fora usada na fixação das Escrituras. Lembra a opção de Calvino de cantar, sem acompanhamento de instrumentos, os salmos, v por entender que somente a Palavra é digna de ser cantada. Dr. Hermisten, entretanto, assevera que “os hinos da igreja não precisa estar limitados aos salmos, mesmo reconhecendo seu indiscutível valor...” (COSTA, 2009, 313).

Finalmente, Costa aborda o culto como profissão de fé. Avulta que as partes do culto devem ser expressão do que cremos, de acordo com a Bíblia. O culto deve ser compreensível aos participantes a fim de que todos possam fazer ressoar em seus lábios a oração de seu coração: “Amém!”. Por essa razão, Calvino condenava a pompa artificial de qualquer cerimônia religiosa, pois o culto não visa entreter o homem, mas sim agrada e glorificar a Deus. Sublinha, por fim, que o culto a Deus é caracterizado pela submissão às Escrituras: “nisto consiste a verdadeira adoração”. Sendo assim, reformado não deve “fazer sincretismo teológicos e litúrgicos” (COSTA, 2009, 324).

O capítulo oito apresenta a importância da educação para a Reforma e para Calvino. Destaca a forte ênfase dada a educação pelos reformadores e assevera que por traz deste ardor pedagógico herdado da reforma estava um firme fundamento teológico, uma vez que a educação visava preparar “o ser humano para melhor servir a Deus na sociedade, a fim de que Deus fosse glorificado” (COSTA, 2009, 327). Essa realidade, entretanto, só era possível por meio de uma fé explícita. Para Calvino o saber deveria gerar o fazer. Além disso, Costa aborda o conceito de Graça Comum e suas implicações culturais. Lembra que Calvino dispunha de uma visão ampla da cultura, entendendo que Deus é Senhor de todas as coisas; por isso, toda verdade é verdade de Deus. Esta perspectiva amparava-se no conceito da “Graça Comum”.

A fim de mostrar a importância de Calvino para educação, Costa discorre sobre a Academia de Genebra: a missão e vocação. Sublinha o fato de que a base da formação educacional em Genebra era a Bíblia. E que apesar da educação ser competência da família e do Estado, a igreja tinha um papel especialíssimo. “Por essa razão, os ministros da Palavra assumiriam a tarefa da educação nas escolas elementares e nos colégios de Genebra”. A Academia tornou-se grandemente respeitada em toda a Europa e fez de Genebra “um dos faróis do Ocidente”. A fim de comprovar a tese supracitada, Costa apresenta dois dos discípulos de Calvino e sua influência na educação mundial: John Knox e João Amós Comênio. Sem dúvida, entre os Reformadores, Calvino foi quem mais amplamente compreendeu a abrangência das implicações do evangelho nas diversas facetas da vida humana de modo especial na educação.

No capítulo nove Costa trata da ética social de Calvino sublinhando o trabalho que é visto como um esforço físico e intelectual. Para o maior entendimento do assunto o autor traz um estudo etimológico da palavra trabalho e suas principais características, entre elas a divisão social. Em seguida, traz a contribuição de Lutero para uma nova perspectiva do trabalho ao traduzir o Novo Testamento para o Alemão empregando a palavra beruf para trabalho ao invés arbeit. Após esta contextualização, Costa apresenta a perspectiva de Calvino sobre o assunto. Destaca que Calvino entendia que o trabalho é uma vocação e uma oportunidade para servir a Deus e ao próximo. Em relação à ética do trabalho lembra que Calvino defendia três princípios fundamentais: Trabalho, poupança e frugalidade.

Em seguida, costa apresenta alguns princípios presentes nas institutas, concernentes ao uso dos bens concedidos por deus: 1) em tudo devemos contemplar o criador, e dar-lhe graças: os recursos de que dispomos devem ser um estímulo a sermos agradecidos a Deus; 2) usemos deste mundo como se não usássemos dele: devemos viver neste mundo com moderação, sem colocar o coração nos bens materiais; 3) suportemos a pobreza; usemos moderadamente da abundância: “tanto sei estar humilhado, como também ser honrado...” Costa encerra o capítulo asseverando que somos administradores dos bens de Deus. Todo que temos vem de Deus e não pode se tornar um ídolo. Ao contrario o fruto do trabalho deve ser o beneficio da sociedade. Além disso, as pessoas devem ser avaliadas não pelo seu dinheiro, mas por sua piedade.

O último capítulo é uma breve análise da visão calvinista a respeito da ciência. Para ele o divórcio entre fé e razão não tem motivos justos, pois “a ciência começa sempre por um ato de fé; é impossível haver ciência sem fé” (COSTA, 2009, 267).  Tendo dito isto, apresenta os tipos de conhecimentos e assevera que “a ciência não é o único caminho para se chegar ao conhecimento e, na realidade, não pode esgotar o real” (COSTA, 2009, 271). Além disso, afirma que a ciência caminha dentro da dialética do saber - ignorância - saber e que ela está comprometida com a compreensão do real, mesmo que este não lhe pareça algo agradável ou digno; não cabe a ela escolher um “real ideal”. Sublinha ainda que a ciência é em grande parte filha da necessidade e do trabalho. Em seguida apresenta a Ciência e Religião no Pensamento Moderno e faz uma análise histórica do relacionamento entre ciência e fé tendo como destaque os pensadores Copérnico, Galileu e Newton. E conclui que enquanto que o conhecimento humano é limitado, só alcançando um conhecimento científico das coisas e suas relações através de um processo laborioso de pensamento dialético, o conhecimento que Deus tem, é imediato e completo. O autor fecha a sua obra refletindo a grande contribuição de Calvino na formação do homem reformado.

O livro “João Calvino 500 anos: introdução ao seu pensamento e obra” do Dr. Hermisten Maia é de grande valia para o entendimento histórico e teológico da vida e obra de João Calvino. A leitura da obra foi bem produtiva, pois, de maneira rápida e clara foi possível conhecer os principais aspectos da vida deste grande reformador e acima de tudo as implicações práticas do seu pensamento, na vida igreja reformada e do mundo contemporânea.

Por meio de uma acurada metodologia cientifica de pesquisa o autor aborda o assunto proposto de forma didática e dentro de uma sequencia sistemática e lógica, trata do tema com grande clareza demonstrando um vasto conhecimento do assunto. Ele mostra que o calvinismo nascido há 500 anos não é apenas como um conjunto de dogmas teológicos que teve influência no meio eclesiástico, mas que tem sido antes de tudo, uma cosmovisão que foi desenvolvida a partir da doutrina da soberania de Deus, e, que tem sido uma filosofia de vida que tem afetado a sociedade e os indivíduos como um todo.

A grande contribuição da obra é apresentar a vida deste reformador genebrino de maneira clara e concisa, o que a torna uma grande fonte de consulta rápida. Este não é o único livro do assunto. Muitos são os autores que tem escrito sobre este assunto. Todavia, a obra do Dr. Hermisten toma um enfoque distinto ao apresentar em todos os capítulos inúmeras notas de rodapé, o que conduz a leitor, sobre tudo se ele é um pesquisador, para um estudo mais profundo dos temas abordados na presente obra.

Apesar ser um calvinista declarado e convicto, Dr. Hermisten demonstrou neutralidade em sua análise história e teológica ao apresentar os fatos mais que as interpretações. Ele não nega pontos fracos, os anseios e lutas deste grande teólogo da história eclesiástica; e de igual modo não o exalta além da mediada, o que faz dessa obra algo bastante interessante. Na obra fica claro o propósito era trazer de forma sintética, específica e dentro de uma unidade de pensamento, os principais aspectos da vida e obra de João Calvino, e ele faz isso com eficiência e clareza.

A obra é indicada para todos aqueles desejam ter um resumo da vida e obra deste grande reformador genebrino. Ela é uma ótima ferramenta para o entendimento da matéria. Por isso, para todos estudiosos e interessados em conhecer a cosmovisão de Calvino dentro de seu contexto socioeconômico, este é um livro que não pode faltar na biblioteca.


[1] CALVINO, João. A Verdadeira Vida Cristã. São Paulo: Novo Século, 2000. p. 09.

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Jailson Santos

Mestrando em Divindade pelo Centro de pós-graduação Andrew Jumper (Mackenzie - São Paulo)

Bacharel em Teologia pelo Seminário JMC e Universidade Presbiteriana Mackenzie

Pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana Aliança em Limeira - SP

Professor de teologia sistemática no SPFB

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